domingo, 28 de outubro de 2007

" Urbe de néons "


Como um predador pronto a atacar a sua presa,o brilho ofuscante da cidade penetrava na sua pele como se esta fizesse parte daquele mundo tão deslumbrante e tão traiçoeiro. Era sempre atraída por um beco lamacento infestado por cheiros atordoantes e viscerais que a mantinham presa sob o brilho esfuziante de um néon que teimava prostar se no seu caminho. O seu poder era tal, que mesmo na sua cama de pensão de terceira categoria,teimava em ofusca- la com o seu intenso brilho tirando lhe a vontade de se perder em outros voos de tal forma que os seus sonhos eram povoados por eles. Num sono angustiante em que a realidade confundia se com o seu sofrimento,esta corria por entre labirintos escuros ,por névoas da noite aonde se escondiam os seres mais miseráveis do outro lado da cidade e a vergonha que os outros tentavam esquecer,mas corria sempre á procura de algo ainda não definido mas que cada dia e noite que passava era mais intenso,misterioso e real….Estaria a enlouquecer? Qual o significado do néon que a perseguia e atraia para aquele lugar infecto ? Tantas questões que a perseguiam até que numa noite de chuva e de sombras a verdade veio ao seu encontro. O néon teimava na sua missão de a atordoar,de a massacrar e vindo não se sabe de onde uma voz rouca e indistinta saía daquela luz cintilante misturada com sons vindos das esquinas e das travessas ,mas que aos poucos tornava se como um apelo cada vez mais forte. Como um autómato,abriu a porta e lançou se no escuro, a chuva caía como se fosse um bálsamo, o medo e ao mesmo tempo a ânsia de saber o que lhe iria acontecer martelava a sua mente,mas seguia o seu caminho. Dos telhados saíam ruídos,das portas suspiros e das pedras da calçada alcatrão e água que se infiltrava pelo seu corpo. Sentia elevar se no ar e uma calma apoderou se dela e só um pensamento lhe assaltava… Estava na hora de enfrentar os factos,estava no momento que sempre temeu…Enfrentar a dura realidade se encontrar de vez,de deixar de fantasiar e viver um sonho que nunca poderia ser seu,virar as costas a um presente que lhe fechava as portas,mas que devia perseguir um novo caminho. Ali á sua frente,estava um muro difícil de escalar mas não impossível e iria escala- lo até as ultimas consequências. Havia chegado ao fim da linha,não queria mais esperar por algo que nunca viria,não queria mais pensar que teria algum valor. A dor de ser esquecida era demasiada perturbadora e despedaçava -a por dentro á medida que os dias infindáveis e as noites de tormento a faziam olhar cada minuto e a cada segundo por um sinal mínimo que fosse que tinha importância. Na realidade, a verdade estava ali a pedir para ser reconhecida, pedia que uma vez na vida levantasse os olhos ,os ombros ,os olhos e a cabeça sentindo que não seria ela a perdedora,não seria ela a vencida. Todos os outros teriam de provar o fel de também serem um dia esquecidos,esperaria que um dia o espelho lhes revelasse que ninguém pode viver como uma rocha ,que ninguém tem o direito de enfiar a cabeça na areia e que muito menos não podem esquecer que cairão do pedestal do convencimento e do desprezo, porque um dia descerão ás trevas do coração traiçoeiro e ilusório. Nesse dia aprenderão que viverem por si mesmos e de banalidades não lhes trará a vitória sobre a vida mas a vergonha,o desespero e a desonra. Em frente o muro agora resplandecia,não jorrava mais lodo e podridão que o néon teimava empurrar ,mas agora este transmitia o seu verdadeiro brilho e como uma chuva de Verão,esta parou, e mesmo na escuridão daquela rua ela viu a sua nova verdade….tinha andado perdida mas agora retornaria ao ponto de partida e abriria as suas janelas em direcção aos néons que agora reflectiam um novo brilho…o brilho do recomeço,o brilho do lado belo de si mesma que a cidade lhe oferecia.Agora sabia o que fazer e como um acordar de um sonho,esta voltou ao seu mundo e arregaçou as mangas da vontade e foi ao encontro daquele néon que lhe oferecia um novo brilho naquela cidade tão cinzenta e dura!

1 comentário:

Rute - Alma Criativa disse...

Gosto do texto e a imagem foi bem escolhida :)